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Visão de Mercado - Artigo
Gestão Estratégica de FACILITIES no século 21
Convidamos o leitor, que neste momento deve estar em casa, no trabalho, no hospital, no shopping, na escola, na fila, no avião, no lazer, ou em outro lugar, a fazer um exercício: pare e note ao seu redor os objetos que compõem o ambiente que o circunda. Sinta a luz, o ar, os ruídos e sons, as cores, os móveis, o fluxo das pessoas e a disposição do local e dos equipamentos. O arranjo dessas coisas inanimadas é o resultado da Gestão de Facilidades.
Agora, continue olhando para as coisas que estão fora do seu ambiente, por exemplo, através da janela, observe o trânsito, a iluminação das ruas, a distribuição dos prédios e o fluxo das pessoas. A Gestão de Facilidades vai além da harmonização dos elementos ao nosso redor. Ela se expande para a rua, para a cidade, para o país, para o continente e o para mundo onde vivemos.
Os países emergentes são hoje as coqueluches das análises acadêmicas e das experiências profissionais no mundo corporativo. A busca por redução de custos, aumento da qualidade dos produtos e serviços, e minimização dos riscos dos negócios já foram explorados em demasia pela literatura anglo-saxônica, e nos fizeram absorver metodologias e práticas organizacionais "alienígenas" que não se adaptam à nossa realidade.
São poucas empresas que possuem em sua estrutura organizacional um espaço formal para a gerência de Facilidades. No geral, essa função é exercida pela área de Manutenção Predial, Recursos Humanos e áreas similares. Não há disciplinas específicas nas universidades, com exceção de alguns poucos cursos de extensão, de modo que muitos profissionais acabam exercendo a função mais pela experiência adquirida ao longo dos anos do que pela formação acadêmica. Sem contar que a atividade é pouco reconhecida enquanto elo estratégico ou área de negócios. Além dessas peculiaridades, a Gestão de Facilidades é uma área que gera despesas, o terror das organizações.
A Gestão de Facilidades (Facilities Management) vem ganhando importância enquanto disciplina a partir de 1970. No Brasil, o assunto sob o ponto de vista dessa abordagem ainda é novo. No processo de intensa concorrência internacional ao qual fomos expostos principalmente no período Collor, no início da década de 1990, as empresas nacionais que sobreviveram passaram pela padronização, adequação e adaptação de normas, de métodos e de técnicas majoritariamente estrangeiras. Hoje quase não há processo ou produto que não possa ser imitado (vide Japão na década de 1970 e China hoje em dia). E se os elos produtivos da cadeia de valores estão se similarizando, o diferencial estaria então nos elos de suporte.
Quais seriam então os novos obstáculos para GF emergidos de uma sociedade mais individualista e materialista e, ao mesmo tempo, politizada, exigente e informada? Podemos citar alguns: redução contínua de custos, pressão sobre os contratados, gerenciamento de energia alternativa, policiamento governamental, mudança, riscos e vulnerabilidade tecnológica, pressões da comunidade, terrorismo, novas necessidades dos empregados, logística, governança corporativa, planeta insustentável, novas habilidades gerenciais, síndrome dos edifícios e imagem corporativa.
O escritor Gilles Lipovetsky, no livro A Era do Vazio, chama o período em que vivemos de "revolução de reivindicações", em que todos os grupos, mesmo os minoritários, buscam seus direitos. Essa busca gera novas demandas, sobretudo nas organizações. Entretanto, antagonicamente, o autor alerta que o trabalho ainda é limitante, e que quanto mais houver tempo livre e personalização, mais o trabalho correrá o risco de parecer fastidioso, vazio de sentido, parecendo um tempo roubado do tempo pleno, do tempo da vida particular e livre.
Sobre esta perspectiva pós-industrial, as áreas de serviços, em franco desenvolvimento, amortizadoras do impacto negativo do trabalho sobre a individualidade e a necessidade de liberdade do homem, freiam a produtividade e o crescimento global sob o aspecto financeiro, pois geram uma alta brutal nos custos, onerando os produtos finais. Os mais indignados irão achar que estamos depondo contra as áreas de serviços, mas na realidade, numa sociedade desigual como a nossa, na maioria das vezes, quando optamos por um produto ou serviço, consideramos principalmente os custos dos mesmos.
Você compraria um iogurte tal porque o fabricante é ecologicamente correto, ou realmente porque seu preço é o menor? Seria hipocrisia acharmos que todos os acionistas das corporações estão preocupados com o desenvolvimento sustentável. Prova disso são as incontáveis histórias de tragédias ambientais, crises financeiras, mão-de-obra semi-escrava ou infantil, escândalos envolvendo a indústria da guerra e as corporações, apesar da diligência social intensiva.
Assim, a mudança ou a transformação freqüentemente estão sob pressão. E, a partir do efeito dessa pressão, interna ou externa, é que surge a Gestão de Facilidades. Não é um nascimento fácil, porque somos, aos olhos de alguns setores das organizações, muito mais "bandidos" do que "mocinhos". Geramos despesas que as empresas não estavam dispostas a desembolsar e temos, dentro de fortes restrições, como atividade básica, a criação de conforto e praticidade para os empregados, para os departamentos e para a comunidade. Este alerta põe pano frio, freando os ímpetos daqueles que esperam grandes reconhecimentos e glórias neste campo profissional.
O intuito do livro Gestão de Facilidades foi provocar uma reflexão para o amadurecimento da atividade de GF no Brasil, mesmo sabendo das limitações, ajudando os gestores a se valorizarem e se posicionarem melhor diante dos executivos de suas empresas.
Frente a alguns desses obstáculos citados nos parágrafos anteriores, fica a pergunta: então para quê a área de Facilidades? A resposta nos remete ao mais complexo aparato tecnológico já criado: o próprio homem e suas necessidades. Se estivermos, como bem fundamentado por Rosiska Darcy de Oliveira, reinventando ou re-engenhando o nosso tempo, mais precioso do que nunca, estamos transformando nossa forma de ver, sentir, entender e exigir do mundo.
Se quisermos nos sentir parte de um todo sem perder o eu individual, estamos na verdade forçando um mundo menos racionalizado e menos economicamente "maximizado", mais humano e inclusivo. O Brasil, por meio de suas empresas, segue sua busca por posições mais privilegiadas dentro da concorrência entre nações. Nessa corrida, aqueles que obtiverem os melhores arranjos estratégicos mantêm (mesmo que temporariamente) um lugar ao sol.
Em recente pesquisa realizada com 207 gerentes que atuam na área, concluiu-se que 52% deles estavam desempenhando atividades amplas que não condiziam com a real função exercida, 63% perceberam que havia necessidade de desenvolvimento de um perfil mais estratégico, 95% desejavam ver a GF como uma disciplina de negócios. De modo geral, apontaram a importância da criação de órgãos profissionais, estando mais focados em assuntos legais, menos preocupados com questões de terceirização e, finalmente, enxergando a GF como uma ferramenta que contribui para as áreas core das empresas nos próximos anos.
Atendendo parte dessas novas demandas, mesmo nos piores cenários, a Gestão de Facilidades no Brasil encontra um espaço, um significado: o de trabalhar olhando, sobretudo, o amanhã.
Robson Quinello é graduado e mestre em Administração; José Roberto Nicoletti é Engenheiro de Produção e mestre em Administração. Ambos têm experiência na área de projetos, manutenção, facilities e afins, sendo professores de cursos de pós-graduação. São os autores do livro Gestão de Facilidades nicotech@uol.com.br / rquinello@uol.com.br